OAB cobra TJES por atrasos em Itapemirim e Marataízes

Ofício da gestão da presidente Erica Neves pede mutirão para desarquivamentos, avanço dos processos e revisão da sobrecarga judicial

A Ordem dos Advogados do Brasil Seção Espírito Santo (OAB-ES) encaminhou um ofício à presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo (TJES), desembargadora Janete Vargas Simões, solicitando providências administrativas diante de atrasos na tramitação de processos e dificuldades operacionais na 2ª Vara Cível e da Fazenda Pública Regional de Itapemirim e Marataízes. A iniciativa, divulgada nesta quinta-feira (5), foi conduzida pela gestão da presidente Erica Ferreira Neves em atuação conjunta com a 10ª Subseção da OAB-ES. O documento pede medidas para regularizar os desarquivamentos pendentes, acelerar a movimentação processual e avaliar a distribuição de responsabilidades judiciais que possam estar contribuindo para a sobrecarga da unidade.

A manifestação representa um novo desdobramento das cobranças realizadas pela advocacia regional ao longo de 2026. Segundo a OAB-ES, entre os problemas relatados estão a demora na apreciação de pedidos de desarquivamento e o acúmulo de processos aguardando análise. As dificuldades vêm sendo apresentadas por advogados e advogadas que atuam na comarca e relatam obstáculos para obter o andamento regular de demandas judiciais. A Seccional decidiu levar a questão novamente à administração superior do Judiciário capixaba, desta vez com pedidos específicos de intervenção administrativa destinados a reduzir o volume de pendências.

O ofício solicita três providências principais. A primeira é a adoção de medidas administrativas para regularizar a fila de desarquivamentos, considerada um dos pontos críticos pela advocacia. A segunda é a disponibilização de uma força-tarefa ou mutirão capaz de acelerar a movimentação e a análise dos processos acumulados. A terceira envolve a avaliação da atual cumulação de jurisdição, para verificar se a distribuição de atribuições está contribuindo para a sobrecarga das unidades judiciais e se existem alternativas administrativas que permitam aprimorar a prestação jurisdicional.

A cobrança vai além da preocupação com os indicadores de produtividade do Judiciário. Para advogados e advogadas, a demora na movimentação de processos pode comprometer a execução de providências necessárias ao andamento das ações e dificultar o atendimento aos clientes. Um pedido de desarquivamento não apreciado, por exemplo, pode impedir a retomada de determinadas medidas processuais, enquanto a ausência de movimentação após a apresentação de petições prolonga o período de espera dos interessados. Em situações que envolvem direitos patrimoniais, obrigações financeiras ou medidas urgentes, esses atrasos podem produzir consequências relevantes para os jurisdicionados.

A decisão da gestão da presidente Erica Neves de encaminhar o expediente à presidente do TJES também demonstra uma mudança na etapa de atuação institucional. Em manifestações anteriores, a 10ª Subseção havia solicitado principalmente informações sobre o funcionamento da unidade, o volume de processos e as causas dos atrasos relatados. Agora, em uma segunda etapa, a Seccional apresenta pedidos concretos de reorganização do fluxo de trabalho, reforço temporário das atividades e avaliação das condições de funcionamento da estrutura judicial. A proposta é buscar providências capazes de enfrentar os problemas identificados pela advocacia, sem limitar a discussão à constatação das dificuldades.

A atuação conjunta possui antecedentes documentados. Em 14 de agosto, a presidência da 10ª Subseção encaminhou os Ofícios nºs 042 e 043/2026 para solicitar esclarecimentos sobre a tramitação processual e o atendimento prestado pela 2ª Vara Cível e da Fazenda Pública Regional. O primeiro expediente foi dirigido ao juiz de Direito Thiago Balbi da Costa, responsável pela unidade, enquanto o segundo levou as reclamações ao conhecimento da presidente do Tribunal, desembargadora Janete Vargas Simões. Naquela oportunidade, a Ordem procurou obter informações estatísticas e gerenciais antes de formular conclusões sobre as causas das dificuldades.

Entre os dados solicitados em agosto estavam o número de processos aguardando conclusão, os feitos conclusos havia mais de 100 dias, as petições pendentes de leitura ou juntada aos autos e os pedidos de desarquivamento ainda sem providência. A 10ª Subseção também pediu informações sobre processos com prazos vencidos e pendentes de movimentação, bem como sobre o funcionamento dos canais institucionais de atendimento. A preocupação era identificar em quais etapas se concentravam os possíveis gargalos e compreender se os atrasos decorriam de dificuldades administrativas, do volume de trabalho ou de outros fatores que necessitassem de avaliação pelo Tribunal.

Presidente da 10ª Subseção da OAB-ES, Candido Louzada da Silva

Os pedidos de desarquivamento já figuravam entre as situações mais preocupantes naquele momento. Conforme registrado em reportagem publicada pelo portal OAB Itapemirim em 18 de agosto, a Subseção havia recebido relatos de requerimentos formulados ainda em 2025 que continuariam sem resposta. O Ofício nº 043/2026 mencionava, inclusive, um caso em que o pedido estaria próximo de completar 360 dias sem providência. A referência demonstrava a necessidade de obter informações objetivas sobre o estoque de solicitações pendentes e sobre o tempo empregado pela unidade para examinar os requerimentos.

As manifestações recebidas anteriormente pela OAB também envolviam possíveis arquivamentos prematuros de processos, demora na conclusão de feitos e dificuldades de atendimento à advocacia. Alguns profissionais relataram obstáculos para utilizar o Balcão Virtual e obter respostas por canais institucionais. Na ocasião, a 10ª Subseção ressaltou que as reclamações deveriam ser examinadas com cautela e confrontadas com os registros oficiais, sem atribuição antecipada de responsabilidade individual a magistrados ou servidores. A iniciativa agora anunciada pela Seccional mantém a necessidade de avaliação administrativa, mas acrescenta propostas de enfrentamento das pendências acumuladas.

O presidente da 10ª Subseção, Candido Louzada da Silva, já havia defendido, durante a tramitação dos ofícios de agosto, que a solução dependia de informações concretas e interlocução institucional. “Nosso objetivo é compreender, a partir de dados concretos, as dificuldades que vêm sendo relatadas pela advocacia e construir, por meio do diálogo com o Poder Judiciário, soluções que contribuam para uma tramitação processual mais eficiente e para um atendimento adequado aos advogados, advogadas e jurisdicionados”, afirmou à época. A manifestação sintetiza a linha de atuação adotada pela Subseção, que procura transformar as reclamações recebidas em encaminhamentos formais dirigidos aos órgãos responsáveis pela administração judicial.

A divulgação do novo ofício nesta quinta-feira provocou manifestações de advogados e advogadas nas redes sociais da OAB-ES. Os comentários revelam que parte dos profissionais considera as dificuldades antigas e defende providências mais abrangentes. O advogado Saulo Viana, por exemplo, manifestou apoio à iniciativa e mencionou a possibilidade de fiscalização correicional. “As reclamações referentes a essa vara são recorrentes. Talvez seja o caso até de uma correição”, escreveu.

O advogado Bruno Sabino também relatou dificuldades relacionadas à movimentação de um recurso. Segundo afirmou na publicação da Seccional, uma apelação protocolada em 25 de fevereiro ainda não havia sido encaminhada ao Tribunal. O profissional acrescentou que, ao procurar atendimento presencial, recebeu uma resposta que considerou inadequada sobre a posição do processo na fila de trabalho.

A advogada Yasmin Viana, por sua vez, destacou a necessidade de uma manifestação da administração do Judiciário capixaba. “A luta não para! Precisamos de um posicionamento do TJES”, escreveu na publicação da Seccional. A cobrança se soma às manifestações de profissionais que reconhecem a importância do encaminhamento institucional e aguardam medidas capazes de melhorar a movimentação dos processos. Até as informações disponibilizadas para esta reportagem, não havia ainda a confirmação de resposta da Presidência do TJES ao novo expediente nem de decisão sobre a realização de mutirão ou força-tarefa.

Foto capa: Comunicação OAB-ES